Nova configuração da paisagem – Paisagens imaginárias

O debate entre o regional e o universal. Ambos são válidos, um se sobressai quando um se cansa do outro. Quando há excesso de universalismo, sempre se busca o despontar regional, e vice-versa. O pintor é também sua circunstância, segundo a definição de circunstância do filósofo Ortega Y Gasset. Temos a nossa essência e o que nos circunda, que também nos transforma através da interação entre ambos. A paisagem é uma possibilidade. Devemos não só melhorar a nós mesmos como as circunstâncias.

Pude, ao longo dos anos, ter uma visão ampla daquilo que já vinha pensando sobre minha obra artística, e consigo aqui deixar um breve panorama. Como artista, professor de história da arte e arquitetura e escritor, é certo que a influência da história e da tradição são parte da minha obra e do meu pensamento. É preciso entender que a arte pode não ter uma função útil e prática, e geralmente não tem, e que vem do ímpeto criador de um artista contemporâneo. Ninguém o solicitou que criasse, ele simplesmente faz, pela força do espírito. Devido a arte não ser necessariamente prática, ela oferece resistência de entendimento a uma grande parcela da sociedade. A arte participa de um mundo que se quer construir e cultivar, não necessariamente o mundo que se vê. Segundo Northrop Frye, em seu livro A Imaginação Educada, a medida em que cultivamos um jardim elaboramos o conceito de “erva daninha”, uma planta que não queremos por ali. Nossa educação funciona de forma semelhante; faremos seleções ao longo de nossa vida com o intuito de evoluirmos, mas isso nos custa esforços materiais e espirituais, e muita disposição, e isso se chama liberdade.

As paisagens imaginárias são imagens da experiência humana, potencialmente possíveis. A ciência trabalha sobre os fatos e leis naturais, mas necessita da imaginação para avançar para modelos potencialmente possíveis. Já a arte costuma se iniciar na imaginação para dai participar da realidade física. Dessa forma, as paisagens imaginárias são modelos possíveis, como vemos em Lorrain ou Poussin, e se tornam modelos artísticos e clássicos. Não se cobra uma evolução da arte como se cobra da ciência, pois as experiências passadas da arte continuarão como modelos insuperáveis para o futuro. O Parthenon não precisa evoluir, ele é.

Posso rastrear uma linhagem das minhas paisagens imaginárias ao perceber nelas as influências de outros artistas que admiro, como Guignard, Portinari, Di Cavalcanti, Friedrich, Lorrain ou Poussin, entre outros. Concordo que o jovem estudante deve imitar, através dos estudos, aquilo que está consumado como um modelo clássico, mesmo que seja transgressor no futuro. Por isso a história é uma disciplina importante, seguida da crítica e filosofia, assim como Shakespeare ou Machado de Assis encorpam e modelam o jovem escritor ou estudioso da literatura. Os fundamentos clássicos se sustentam nos dias de hoje não por falta de imaginação das novas gerações, mas por serem modelos estéticos consolidados que fundamentam as novas gerações nas esferas eruditas e populares. Como demonstrou Frye em relação à literatura canadense, considero inútil a manutenção de uma brasilidade artificial, com esses aspectos folclóricos forçados e estereotipados, sem que a presença das tradições, oriundas de diversas partes, se façam presentes. Isso me leva à compreensão da identidade, à compreensão do que gostamos e do que queremos nos distanciar. Não pretendo sucumbir sob a influência da cultura de massas, por isso essa educação é fundamental.

Através da observação e pesquisa, as paisagens imaginárias almejam uma compreensão dos conflitos humanos através dos conceitos de paisagem, da paisagem que a mim é familiar. Deve ser assim pois é nela que exerço minhas experiências, e não em outros países. Porém, as experiências dos clássicos nos apresentam as experiências passadas nesses outros territórios. As figuras de linguagem e símbolos ultrapassam as fronteiras físicas e temporais, e negligenciá-las é um equívoco. Frye nos recorda que Aristóteles diz que o poeta não tem a função de nos informar o que aconteceu, mas o que acontece; não aquilo o que se deu, mas aquilo que sempre se dá, o universal. O Aquiles histórico pode não ter existido, mas seu mito reflete uma parte de nossas próprias vidas. Por isso, quando recorto uma montanha que não existe na realidade, é para que ela se torne um símbolo. A arte não pode ser fiel à vida, mas sim à própria arte e suas linguagens. Esse ambiente ideal, que pode ser visto nas paisagens imaginárias, só pode advir de algo que em nossa educação nos foi sugerido, como cultura, com valores e elementos do que se pensou e se disse. Esse é o poder da imaginação.

Marcelo Albuquerque, 2021.

English version

New landscape configuration – Imaginary landscapes

The debate between the regional and the universal. Both are valid, one stands out when one gets tired of the other. When there is an excess of universalism, one always seeks regional emergence, and vice versa. The painter is also his circumstance, according to the definition of circumstance by the philosopher Ortega Y Gasset. We have our essence and our surroundings, which also transforms us through the interaction between them. The landscape is a possibility. We must not only improve ourselves but circumstances.

Over the years, I was able to have a broad view of what I had been thinking about my artistic work, and here I am able to leave a brief overview. As an artist, professor of art and architecture history and writer, it is certain that the influence of history and tradition are part of my work and my thinking. It must be understood that art may not have a useful and practical function, and it usually does not, and that it comes from the creative impetus of a contemporary artist. No one asked him to create, he simply does, by the force of spirit. Because art is not necessarily practical, it offers resistance to understanding to a large portion of society. Art participates in a world that you want to build and cultivate, not necessarily the world you see. According to Northrop Frye, in his book The Educated Imagination, as we cultivate a garden we develop the concept of “weed”, a plant that we don’t want around there. Our education works in a similar way; we will make selections throughout our life in order to evolve, but this costs us material and spiritual efforts, and a lot of disposition, and this is called freedom.

Imaginary landscapes are images of human experience, potentially possible. Science works on facts and natural laws, but it needs the imagination to move towards potentially possible models. Art, on the other hand, usually starts in the imagination and then participates in physical reality. In this way, imaginary landscapes are possible models, as we see in Lorrain or Poussin, and become artistic and classic models. An evolution of art is not demanded as it is demanded of science, as the past experiences of art will continue as insurmountable models for the future. Parthenon doesn’t need to evolve, it is.

I can trace a lineage of my imaginary landscapes by noticing in them the influences of other artists I admire, such as Guignard, Portinari, Di Cavalcanti, Friedrich, Lorrain or Poussin, among others. I agree that the young student must imitate, through studies, what is consummated as a classic model, even if it is a transgressor in the future. That is why history is an important discipline, followed by criticism and philosophy, just as Shakespeare or Machado de Assis embody and shape the young writer or scholar of literature. The classical foundations are sustained today not because of the lack of imagination of the new generations, but because they are consolidated aesthetic models that support the new generations in the erudite and popular spheres. As Frye demonstrated in relation to Canadian literature, I consider it useless to maintain an artificial Brazilianness, with these forced and stereotyped folkloric aspects, without the presence of traditions, originating from different parts, being present. This leads me to understanding identity, understanding what we like and what we want to distance ourselves from. I don’t intend to succumb under the influence of mass culture, so this education is essential.

Through observation and research, imaginary landscapes aim at an understanding of human conflicts through the concepts of landscape, the landscape that is familiar to me. It must be like that because it is in it that I exercise my experiences, and not in other countries. However, the experiences of the classics present us with past experiences in these other territories. Figures of speech and symbols cross physical and temporal boundaries, and to neglect them is a mistake. Frye reminds us that Aristotle says that the poet does not have the function of informing us what happened, but what happens; not what has been given, but what has always been given, the universal. The historical Achilles may not have existed, but his myth reflects a part of our own lives. So when I cut out a mountain that doesn’t actually exist, it’s so that it becomes a symbol. Art cannot be faithful to life, but to art itself and its languages. This ideal environment, which can be seen in imaginary landscapes, can only come from something that was suggested to us in our education, as a culture, with values ​​and elements of what was thought and said. That’s the power of imagination.

Marcelo Albuquerque, 2021.

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