Nova Configuração da Paisagem

Por Marcelo Albuquerque

Texto do catálogo da exposição Nova Configuração da Paisagem. Vallourec & Mannesmann Tubes, 2013.

Paisagem imaginária com montanhas cortadas. Óleo sobre tela, 120 x 180 cm. 2012. Acervo particular.


Nova configuração da paisagem é uma série de obras de pintura, aquarela e desenho que expressam a minha pesquisa artística no campo da representação, significado e construção da paisagem na arte. Proponho captar o imaginário expresso nas obras como articuladores de valores culturais e expressivos, formados por muitas camadas de significaçãoA paisagem é muito mais que o simples espaço exterior ao homem. A paisagem é, portanto, uma construção cultural. Na perspectiva de alguns imaginários artísticos, a paisagem tem feito do entorno exterior e visível a chave para a compreensão do sentido da vida humana de um longo e complexo sistema simbólico, na qual se assenta a autoimagem de seus habitantes. Optei, neste texto, como forma de apresentar meu trabalho, contextualizar um dos meus principais objetos de estudo: a paisagem na arte em Minas Gerais. Em maior ou menor grau, os artistas aqui relacionados são estudados nos meus trabalhos e alguns são citados em algumas paisagens. Entretanto, o caráter regionalista da paisagem mineira observa a história da paisagem na arte internacional e brasileira.

A paisagem mineira, em sua história, é representada de forma ampla: brejeira, romântica, formalmente modernista com conteúdo nacionalista, instalações contemporâneas, etc. As paisagens culturais mineiras costumam se apresentar em diversas obras em diferentes gerações. Os marcos geográficos, como o pico do Itacolomy, em Ouro Preto, costumam representar o civismo patriótico, muitas vezes associada a uma tão discursada vocação natural do mineiro com a liberdade (nos remetendo à história da Inconfidência Mineira aos discursos de Tancredo Neves nas Diretas Já). Pretendo, assim, pesquisar outros marcos geográficos emblemáticos da paisagem. As festas populares se apresentam a alguns artistas como uma simbiose entre o homem e a paisagem, seja ela urbana ou rural.

Se Minas são muitas, podemos perceber as Minas do ferro e do ouro, as Minas dos sertões e as Minas do café e do leite. As representações das paisagens do sertão mineiro estão presentes desde a época dos viajantes. Guimarães Rosa eternizou o homem e a paisagem do sertão. Entre os artistas que trabalharam o cerrado, destaco Aníbal Mattos, com obras realizadas a partir de suas pesquisas nas grutas de Lagoa Santa, e Yara Tupynambá, com suas séries de pinturas e gravuras sobre o rio São Francisco e o processo de colonização mineira vinda do nordeste. Álvaro Apocalype produziu pinturas e desenhos da paisagem de Lagoa Santa, além dos personagens do cotidiano e aspectos da cultura popular, heróis de uma “saga mineira” na sua concepção, de acordo com Márcio Sampaio. Na arte contemporânea, Marcos Coelho Benjamim carrega uma forte poesia sertanista. Arlindo Daibert é sem dúvida um dos maiores mestres do desenho de Minas Gerais, e todo o seu trabalho sobre a obra de Guimarães Rosa merece destaque. O gravurista Clébio Maduro também contribui com inúmeras imagens do cerrado por também residir na região de Lagoa Santa. Pouco conhecido do circuito artístico, Peter Andreas Brandt, que acompanhou as pesquisas de campo de Dr. Peter Lund em Lagoa Santa e região, deixou valiosos registros das escavações e da paisagem dos sítios arqueológicos, além dos desenhos científicos. Os sítios arqueológicos da região de Lagoa Santa sintetizam uma noção de paisagem que integra diversas áreas do conhecimento.

As primeiras imagens dos europeus, do que viria a ser o Estado de Minas Gerais, são dos artistas viajantes, como Rugendas e Thomas Ender. A Estrada Real e o rio das Velhas são comumente retratos nessas obras, nos revelando os primeiros registros dos marcos geográficos e da paisagem em geral. O artista contemporâneo Mário Zavagli possui um precioso trabalho em aquarela e profunda pesquisa sobre o tema dos artistas viajantes, dialogando especialmente com Thomas Ender.

Podemos definir como pintores acadêmicos aqueles artistas cuja obra se insere no contexto neoclássico e romântico que dominou todo o século XIX no Brasil. Artistas com A. Furtado, Celso Werneck, Émile Rouède e F. Sterkel merecem um olhar mais atento; suas obras podem ser apreciadas no Museu Histórico Abílio Barreto. As cidades históricas são uma constante dos artistas mineiros, desde o fim do séc. XIX, na geração de Genesco Murta, Aníbal Mattos e Renato de Lima, até a chegada de Guignard e, posteriormente, seus alunos. As pinturas de Altavilla, por exemplo, se caracterizam pelos personagens e paisagens de Minas Gerais: construções típicas da arquitetura colonial mineira, garimpeiros, gente do campo, estradas de terra e fazendas. São temas que evocam uma austera simplicidade da identidade da cultura mineira. As paisagens interioranas tem sua origem na própria autonomia da paisagem como gênero artístico, que se inicia na pintura holandesa do séc. XVII e se consolida nas paisagens românticas do séc. XIX. As pinturas do final do séc. XIX e início do XX são influenciadas pela escola paisagística de Georg Grimm. Grimm consolidou no Brasil a pintura de paisagem em espaço aberto, fora do atelier, como faziam os pintores impressionistas na França da década de 1870. Entretanto, falar de impressionismo aqui, nesse momento, é um equívoco. A pintura feita no espaço exterior, no local do tema, antecede o impressionismo. Falo então da Escola de Barbizon, de Camille Corot e Theodore Rousseau. Esse grupo de artistas, estabelecidos na floresta de Fontainebleau, ao sul de Paris, foi um dos últimos suspiros da pintura romântica, antes do Realismo de Coubert e do Impressionismo de Monet, influenciando ambos os movimentos. As pinturas da Escola de Barbizon caracterizam-se por uma paleta mais luminosa, influenciada pelo “estilo inglês” romântico de John Constable, e pela devoção ao ideal de simplicidade camponesa romântica.

Genesco Murta e Renato de Lima apresentam o tema de uma forma tradicional, seguindo uma perspectiva romântica oitocentista, que evoca uma visão ufanista e de identidade. Porém, é no Impressionismo que a pintura se molda, na captação da vibração da luz. A pintura acadêmica, com elementos impressionistas em alguns artistas será, de fato, rompida com a chegada do mestre Guignard em 1944.

As lições e recomendações pedagógicas de Guignard sobre o estudo da paisagem, especialmente no Parque Municipal de Belo Horizonte e Ouro Preto, ainda são praticadas por muitos professores e estudantes na atualidade. Os núcleos modernistas paulista e carioca, com Anita Malfatti, Di Cavalcanti, Djanira, Portinari e Tarsila do Amaral produziram preciosas obras que evocam a paisagem mineira no que há de mais precioso do modernismo artístico brasileiro. Émeric Marcier, Estevão, Herculano, Inimá de Paula, Mário Silésio, Wilde Lacerda, Yara Tupinambá e Yoshiya Takaoka compõe um cenário de pintores que representam a paisagem na arte moderna em Minas Gerais. Destacam-se as referências surreais e oníricas de Sara Ávila, Chanina, Maria Helena Andrés e Petrônio Bax.

Em Ouro Preto, por volta da década de 1960, se estabeleceu um núcleo de artistas ligados à paisagem. Entre eles estão Carlos Bracher, Carlos Scliar, Fani Bracher, Ivan Marquetti e Nello Nuno. Vale ressaltar que, entre esses artistas, existe uma influência muito forte do expressionismo e do fauvismo.

Após a morte de Guignard, em 1962, uma nova geração de artistas mineiros buscava romper com as influências do mestre, desejando experimentar novas propostas contemporâneas. Da arte contemporânea mineira, a partir da definição de neovanguardas da historiadora da arte Marília Andrés, se encontra um vasto campo de pesquisa no sentido da paisagem. Eventos como Do corpo à terra, em 1970, organizada por Frederico Moraes, marcam uma linguagem experimental considerada radical para os padrões da época, definido na ideia de instalações e site-specific.

A geração virtuosa de desenhistas, que prosperou nos anos 1970, oferece outro repertório de imagens sobre a paisagem mineira, revalorizavando os princípios do desenho guignardiano. Outro tema importante foi a repressão das esquerdas dos tempos da ditadura. Na década de 1980, a pintura vigorosa do neoexpressionismo apresenta alguns artistas que, em maior ou menor grau, se manteram focados na paisagem. Entre os artistas contemporâneos, formados nas gerações de 70 e 80, destaco Carlos Wolney, Décio Noviello, Fátima Pena, Fernando Veloso, José Alberto Nemer, Manoel Serpa, Márcio Sampaio, Mário Zavagli, Miguel Gontijo e Roberto Vieira. Estes artistas irão evidenciar uma vocação da arte mineira: a atenção pela paisagem, no contexto moderno da imagética brasileira e num segundo momento pós-moderno de teor mais crítico e de maior liberdade formal e conceitual.

A materialidade das esculturas de Amílcar de Castro remetem à paisagem ferrosa mineira. Acredito que suas obras são potencializadas com excelência quando inseridas na paisagem montanhosa, em meio ao espaço vegetal. O corte e dobra do metal, junto à cor e à superfície oxidada das esculturas promovem, na minha concepção, um diálogo aristotélico entre substância e acidente.  Manfredo de Souzanetto cita em seu livro depoimento da editora C/Arte que seu trabalho com pigmentos naturais surgiu pelo desejo de reinserir a paisagem em sua produção artística geométrica e abstrata. Voltando a Minas Gerais no início dos anos 1980, depois de residir em Paris, iniciou estudos com pigmentos naturais, a mesma cor que tentava reproduzir através de tintas industriais. Daí vê-se a passagem de um trabalho sobre a representação da paisagem, sobre a paisagem como suporte da obra pictórica, tornado a paisagem como corpo, como pigmento e cor da obra: a cor natural da montanha, dos minérios oxidados que vai corporificar a pintura, tornando-a paisagem. Segundo o artista, o pigmento natural é uma linguagem tradicional, mas é uma linguagem que tem uma permanência.

Erli Fantini, que tem como marco de sua obra a cerâmica tipo bizen, produz instalações de cidades imaginárias utilizando suas balas de cerâmica, tijolos de adobe e terra. Uma cidade que se configura não só pela estranha beleza de suas formas, mas por esta associação com a arquitetura e urbanismo que, como afirma João Diniz, são autênticos personagens de uma urbe e que adquirem uma identidade de valor cultural e referência de localização espacial. No campo escultórico dos objetos e também nas instalações e site specific, José Bento realiza um diálogo com a arquitetura, como assim o faz em seus objetos e esculturas em madeira. Em Benjamim é possível detectar uma passagem lírica pelas tipologias arquitetônicas. Seus objetos, pinturas e esculturas intitulados Torres apresentam características semelhantes a Erli e José Bento como miniaturas ou maquetes de edificações poéticas, assumindo um relato de viagem por materiais recolhidos em ferros-velhos e memórias do Jequitinhonha que, segundo ouvi de Olívio Tavares de Araújo, remetem às Minas de Rosa, diferentemente das Minas Drummondianas das serras e do minério.

A obra de arte pode se relacionar com a arquitetura de diversas maneiras, entre tantas: na forma decorativa e ornamental, como receptora de espaços de exposições e galerias, como suporte e elemento constitutivo para intervenções e instalações e pelo próprio aspecto formal. O caráter escultórico de diversas obras arquitetônicas, como a academia Wanda Bambirra, no bairro Sion, e o projeto do Centro de Arte Corpo, de Éolo Maia com co-autoria de Jô Vasconcellos, entre outros arquitetos, evidenciam um profundo contato na pesquisa da matéria e dos materiais desenvolvido também por artistas contemporâneos no Brasil, tendo no histórico desta união trabalhado em parceria com Amílcar de Castro, Roberto Vieira, Franz Weissmann, Jorge dos Anjos e Thomas Schönauer, induzindo a livres associações e potencialidades da exploração formal e conceitual do objeto e do espaço. Em lugar da forma arquitetônica especificamente funcional, Éolo e Sylvio Podestá privilegiaram a utilização de formas derivadas das artes plásticas no conhecido “Rainha da Sucata” na Praça da Liberdade. É o que acontece com o elemento de ventilação dos sanitários públicos masculinos, em forma de laranja partida, que ao mesmo tempo em que camufla a estrutura (duto de ventilação) faz referência ao contexto pop de apropriações, colagens e montagens, a maneira do pintor Roy Lichtenstein. Internamente, o tratamento plástico e volumétrico representa elementos do barroco mineiro através de formas e materiais. A intenção de construir paisagens e seguir influências de outros estilos artísticos derivados do entorno ou de um contexto cultural se encontra em outro edifício de Éolo Maia e Jô Vasconcellos: O Centro Empresarial Raja Gabaglia (1993). A influência do barroco mineiro se faz presente na onipotência da estrutura que domina a paisagem, assim como as igrejas dominam a paisagem de Ouro Preto. As criações do arquiteto João Diniz também nos remetem à suas associações com artistas, como Jorge dos Anjos.

A paisagem, desde então, será uma constante no cenário artístico mineiro. Minas é um grande celeiro dos pintores ditos naifs. Entre eles destaco Damasceno, José Luiz S, Lorenzato e Rodelnégio. No campo da ilustração, destaco os belos trabalhos de Nelson Cruz. Os artistas oriundos do movimento do graffitti começam a marcar presença na cidade e nas novas galerias de arte, seja nas ruas ou nas obras de técnicas tradicionais. Esses artistas possuem o vigor do desenho, da pintura e das artes gráficas. Em 2008, foi realizada em Belo Horizonte a I Bienal Internacional de Graffitti, idealizada pelo artista Rui Santana, da qual participei como artista convidado.

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